Audiência Pública da ALESC em Joinville debateu propostas para a organização hospitalar de Joinville

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A Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, com o apoio da Sociedade Joinvilense de Medicina (SJM), realizou na sexta-feira (7), no salão nobre da Associação Empresarial de Joinville (Acij), audiência pública sobre a organização hospitalar de Joinville e região, proposta pelo deputado e médico associado da SJM, Dr. Dalmo Claro (PMDB). A audiência, que reuniu cerca de 180 participantes, debateu o déficit de leitos hospitalares no Norte catarinense e o modelo de gestão hospitalar que se busca para os próximos 20 a 30 anos na maior cidade do Estado e região.

7789bDr. Dalmo justificou a necessidade do debate pela deficiência da área hospitalar existente na região. “Temos uma carência muito grande, que tende a se acentuar no futuro com o crescimento da população, e isso preocupa”, disse. Na opinião dele, a região precisa de um hospital moderno, que atenda as necessidades locais. “Queremos levantar as sugestões para definir as diretrizes e orientar os investimentos em saúde.”

Segundo ele, os leitos existentes somam 844 no município. Para atender a necessidade preconizada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), de três leitos para cada mil habitantes, seriam necessários 1.377 leitos, conforme Dalmo Claro. Ele sugeriu medidas para otimizar o aproveitamento dos hospitais existentes, como a especialização do Hospital São José em pronto-socorro, vocacionado para o atendimento de traumas.

O presidente da Sociedade Joinvilense de Medicina, Dr. Antônio Garcia, reiterou que a estrutura hospitalar de Joinville não comporta sequer a necessidade local e por isso a entidade começou a discutir há mais de um ano e meio a necessidade da cidade ter uma nova estrutura, que atenda justamente um cenário que se desenha para as próximas décadas. “O que temos hoje é uma estrutura sucateada e subdimensionada, que atingiu seu ponto crítico.”

7747bDr. Garcia concorda que é preciso pensar a criação de uma nova estrutura hospitalar, direcionada para a demanda existente. Na opinião dele, nenhum projeto de especialização será capaz de reverter o quadro atual, por isso é necessário um projeto maior, com união de forças. A SJM defende um hospital público, eletivo, com viés universitário e com atendimento também na área de oncologia.

Já o deputado Doutor Vicente Caropreso (PSDB) atribuiu os problemas do sistema hospitalar catarinense à defasagem dos valores repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Discussões como esta são importantes para fazermos um diagnóstico. Precisamos reivindicar medidas urgentes”, opinou.


7891bPara o secretário de Estado da Saúde, João Paulo Kleinübing, os desafios na gestão hospitalar incluem discutir especialização, complexidade e vocação de cada hospital. “Simplemente agregar novos leitos não trará ganhos”, argumentou. Kleinübing apresentou dados que demonstram, em média, baixas taxas de ocupação na rede hospitalar catarinense. “Há muita ociosidade, precisamos vocacionar os grandes hospitais para a alta complexidade e otimizar os atendimentos.”

7966bA secretária de Saúde de Joinville, Francieli Cristini Schultz, informou que a folha de pagamento da prefeitura de Joinville dos servidores da área da saúde representa R$ 10 milhões mensais. “O custeio do Hospital Municipal São José consome 10% do orçamento do município, por isso a prefeitura não teria condições de contribuir no funcionamento e manutenção de um novo hospital”, adiantou.

O deputado Antonio Aguiar (PMDB) manifestou igualmente preocupação com o custeio dos hospitais e informou que a bancada do PMDB propôs o aumento do percentual constitucional de 12% para 15% das receitas do Estado para a rubrica saúde.

ESPECIALISTA ABORDA CENÁRIO ATUAL BRASILEIRO

7846bNa abertura do evento, o médico Wladimir Taborda (SP), especialista em gestão hospitalar e professor doutor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), proferiu uma palestra com o tema “Um cenário atual do desempenho e planejamento de hospitais públicos e privados do Brasil”. Segundo Taborda, recentes estudos apontam que o hospital moderno deve ter no mínimo 150 leitos e contar com equipe multidisciplinar em três especialidades: neurologia, oncologia e traumatologia. “A expectativa de vida do brasileiro subiu para 76 anos. Isso tem impacto direto no aumento de casos de AVC, câncer e Alzheimer”, exemplifica Taborda. A traumatologia é outra especialidade médica que deve ser absorvida.

Para o especialista, é fundamental a capacitação dos funcionários, a profissionalização na gestão e a utilização de ferramentas da tecnologia da informação para otimizar o serviço e reduzir gastos. “O RH é o principal custo para a manutenção de um hospital, seja ele público ou privado. Em média, 70% dos recursos são direcionados para cobrir a folha de pagamento”, afirma.

Taborda também expôs que, em um contexto de dificuldade econômica, os hospitais são estruturas caras, com alto custeio, e, portanto, representam um desafio enorme de gestão. “O hospital é a estrutura mais cara, consome a maior parte dos recursos do sistema de saúde”, explicou. Segundo ele, os hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) são muito ruins do ponto de vista de gestão por que têm baixa taxa de ocupação (dificilmente superam 60%) e desperdiçam recursos.

Ele propôs uma reflexão sobre que tipo de estrutura hospitalar é necessária e qual o desafio técnico e político. Quanto ao custeio, ressaltou a necessidade de maior investimento por parte do governo, mas também de planejamento. “Não basta ter recurso, é importante aplicar corretamente esse recurso”, reforçou.

A audiência pública durou mais de quatro horas e todas as sugestões levantadas serão sistematizadas pelo deputado Dalmo Claro com o apoio da SJM e transcritas em um documento, a ser entregue à Secretaria de Estado da Saúde. “As entidades poderão encaminhar as sugestões por escrito no prazo de 30 dias”, informou.